terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Passos

      Chamo-me Michael Kahsnitz e tenho trinta e dois anos. Não tive uma infância. Mentira. Eu até tive, mas esqueci-me dela quando me apercebi da vida que fui obrigado a ter. Não tive mais nada sem ser preocupações e receios. Receio de ter medo. Não sei que faço aqui. Perdido no além da outra cidade tive que mudar de local e esquecer quem fui. Esqueci-me da minha identidade. Fui feito para lutar pelas minhas coisas e pela minha independência, para ser guerreiro e ultrapassar todos os obstáculos. E cada dia esperei que fosse uma vitória e que sempre fosse possível uma mudança que valesse a pena o pisar de asfalto fervido.
      Chamo-me André qualquer coisa e estou quase a fazer vinte anos. Não sei se este é o meu verdadeiro nome e já não sei contar a minha idade pelos dedos da minha mão. Será que um dia fui capaz de o fazer? Gostava de me recordar, mas tudo o que recordo é chuva até três mãos completas. Tenho o meu olhar perdido no nada. Lembro-me vagamente do que me dizias. Por acaso até me recordo da maioria, mas não me apetece recordar mais. Faz-me ter saudades de algo que ficou para trás. Se calhar foi o nosso destino. Nunca soubeste dizer um olá, querias que eu tivesse essa missão, pelo outro lado dizias sempre adeus, ou pelo menos saías e era como um adeus silencioso. Não quero ter saudades disso. Mas ontem recordei-me de ti, talvez aquele filme  tivesse sido o nosso. Tu morreste após cinco anos sem explicação. É triste quando isso acontece.
      Chamo-me Ricardo, nunca soube a origem do nome, mas não me recordo se tenho onze ou doze anos. Marcaste-me por dias seguintes e fugiste. Não consigo olhar na tua cara ainda hoje. Mudaste a minha forma de ser, as minhas atitudes. Comporto-me como uma pedra à frente de muita gente. Como aquela pedra que me atiraste à cabeça naquele dia. Essa pedra redonda que julgava-se não fazer mal a ninguém, mas que afinal de contas causou alguns estragos. Um dia irei ultrapassar isso e esquecer-me de tudo o que se passou. Talvez seja um passado apagado, mas possivelmente será uma preparação para o futuro. Uma pré-preparação do que está por vir. Podemos não mudar algumas coisas, mas a experiência é algo que se adquire com o tempo. Felizmente.