Já não sei o que fazer nem dizer, parece que entrei em modo automático. Se não fosse o cansaço que transporto fisicamente, todos diriam que não passava de um robô.
É esgotante fazer a vida sem quase substância nenhuma. Difícil.
Por vezes, dou por mim a caminhar pela longa rua e sinto-me desencaixado, sem ninguém ao pé que me reconfortasse. Na maioria do tempo perco-me dentro do meu mundo interior, mas existem vezes em que tento encontrar estrangeiros que falem alemão e me façam sentir fora deste país.
segunda-feira, 28 de março de 2011
sexta-feira, 25 de março de 2011
Destruição da circunferência
Esmaga-se um fio de carne na esquina. No outro beco julgava-se apenas enforcar. Este sangue que percorre as descidas das estradas da cidade, tudo se encontra no mesmo ponto. Ponto de porcaria. É a comunidade do desenterro. Ódio é uma palavra minúscula ao lado do meu sentimento. Dores de ouvir falar. Excesso de excrementos de raiva.
segunda-feira, 21 de março de 2011
A chuva não anda, corre.
Quando não se consegue algo só de uma vez, passamos a fazer as coisas pouco a pouco. De que valia uma vida cheia de sentimentos sem racionalizar? Seria masoquismo sem limites.
Nunca é tarde, mas quanto mais tarde, mais serão as coisas que não conseguiremos emendar até serem incontáveis. Pura realidade da vida.
Saudades de quando tudo era mais fácil de perceber ou, então, no caso de não se perceber era porque não havia explicação. Mas tudo mudou, hoje em dia quando não percebo algo corro atrás de possíveis explicações e acabo por desesperar sem uma boa justificação. Não custa nada recordar, mas faz-me doer o coração.
Nunca é tarde, mas quanto mais tarde, mais serão as coisas que não conseguiremos emendar até serem incontáveis. Pura realidade da vida.
Saudades de quando tudo era mais fácil de perceber ou, então, no caso de não se perceber era porque não havia explicação. Mas tudo mudou, hoje em dia quando não percebo algo corro atrás de possíveis explicações e acabo por desesperar sem uma boa justificação. Não custa nada recordar, mas faz-me doer o coração.
domingo, 13 de março de 2011
Heartless
Vou à casa de banho, preciso de lavar as mãos. Necessidade inconsciente. Dou duas pancadas no pacote do sabonete. Espalho pelas mãos antes de por na cara. Acho que é de leite e mel. Lembro-me das abelhas com os seus ferrões vingativos que têm consequências. Espera, o dia está a escurecer e o espelho acabou de embaciar. Um cheiro a ferrugem inala-me o nariz. Olho para as minhas mãos a limparem-se uma à outra automaticamente e reparo que já não tenho sabonete nas mãos, em vez disso tenho sangue. O teu sangue. Olho para o lavatório e vejo a água, que escorre pela torneira, a alterar a sua cor transparente lúcida para o vermelho do teu sangue. Restos da tua pele esfolada acompanham os movimentos circulares do teu sangue. Apetece-me entrar em pânico, mas fico petrificado com uma sensação de alivio pela vingança cometida. Tento lavar o teu sangue das minhas mãos. Não sai, é tinta. Quem me dera que fosse tinta, mas não posso iludir-me. É o teu sangue que já tive a oportunidade de sentir e saborear sem nenhuma violência.
sábado, 12 de março de 2011
Fissuras
Sinto o meu batimento cardíaco a acelerar de forma irregular. Olho para todo o lado desconfiado. Eu sei que estás aí, diz-me algo. És mesmo tu? Vi-te há dois dias atrás. Perturbou-me o facto de estar a ver-te vivo. Ontem estavas no caixão e ela chorava desesperada a perguntar-te porque tinhas de partir. No funeral eu respeitei-te e foi por isso que me calei e tentei não dizer uma única palavra, não era uma despedida, mas sim uma mensagem de apoio para seguires em frente. Desculpa, não aguentei. Quando a vi a desesperar e a engolir-se a si própria vi a minha própria dor, que transporto estes dias todos, a ser exposto por outra pessoa. Caiu-me três lágrimas. Por ela, por ti e por mim. Dói ver alguém a ser consumido pelo sofrimento quando nós próprios já fomos completamente consumidos.
O meu batimento regularizou-se. Agora sinto calafrios a subir-me espinha a cima. O meu respirar parece o vento que bate contra a janela todas as noites. Sinto o sangue a circular por dentro de mim, parece aquecer a minha pele que tenta esfriar. Sinto-me a evoluir. Apenas sinto. Gostava de saber se estou mesmo.
Gostava de descalçar este peso eterno. Mas é impossível, não consigo descalçar coisas que são eternas. Nada é eterno.
O meu batimento regularizou-se. Agora sinto calafrios a subir-me espinha a cima. O meu respirar parece o vento que bate contra a janela todas as noites. Sinto o sangue a circular por dentro de mim, parece aquecer a minha pele que tenta esfriar. Sinto-me a evoluir. Apenas sinto. Gostava de saber se estou mesmo.
Gostava de descalçar este peso eterno. Mas é impossível, não consigo descalçar coisas que são eternas. Nada é eterno.
quinta-feira, 10 de março de 2011
A fuga à pré-vida
Numa cidade, onde as pessoas só sabiam especular sobre a vida dos outros, um rapaz escrevia os seus momentos, tristezas e etapas da vida, saberia que se continuasse assim nunca mais iria parar de escrever tudo o que se passava à sua volta e lhe «flechasse» em cheio. Pegou nos papéis, alinhou tudo e, quando estava prestes a guardar, cai-lhe, de repente, uma gota de sangue que parece integrar-se naquele papel, o papel começa a despedaçar-se folha a folha, deixando-a em pedaços minúsculos. Uma forte brisa entra pela janela e espalha todos aqueles pedaços de papel, levando alguns consigo.
O rapaz ajoelha-se e, perdido no vazio, não sabe no que pensar. Nesse momento, todos os detalhes lhe saltam à vista, o tic-tac mais forte do relógio da parede, o tic-tac mais agudo do relógio de pulso, o piscar das horas na aparelhagem por concertar ainda. E é assim que passa mais um dia da sua vida no vazio.
Quando se levanta só deseja sair dali, fugir dali e nunca mais regressar, mas, contrariando um pouco o seu desejo, pega na sua agenda e abre-a pela contracapa, lê o titulo da página "Notas", nesse mesmo instante pega na caneta e risca a palavra escrevendo em baixo "Ódios". Repensa no que escreveu e começa a sentir algum arrependimento, pensa que ódios é uma palavra desnecessária e que existem palavras melhores, mas continua o que estava a fazer e escreve a lista. Quando acaba de escrever a lista, o rapaz relê. A lista começa com a palavra "aqui", passa por "esperar" e acaba com "arrependimento". Sente-se satisfeito por desabafar indirectamente, mas, subitamente, floresce-lhe uma certa angústia e raiva naquilo que acaba de escrever. O rapaz rasga a folha da agenda e machuca-a. Não quer deitá-la para o caixote do lixo, pois tem medo do destino que ela possa ter. Em vez disso, queima-a e enterra as cinzas no quintal. Olha para o céu e pede, silenciosamente, chuva. Não chove. Já era de esperar.
O rapaz, agora em casa, a olhar pela janela, despede-se antecipadamente da sua vida naquele local.
O rapaz ajoelha-se e, perdido no vazio, não sabe no que pensar. Nesse momento, todos os detalhes lhe saltam à vista, o tic-tac mais forte do relógio da parede, o tic-tac mais agudo do relógio de pulso, o piscar das horas na aparelhagem por concertar ainda. E é assim que passa mais um dia da sua vida no vazio.
Quando se levanta só deseja sair dali, fugir dali e nunca mais regressar, mas, contrariando um pouco o seu desejo, pega na sua agenda e abre-a pela contracapa, lê o titulo da página "Notas", nesse mesmo instante pega na caneta e risca a palavra escrevendo em baixo "Ódios". Repensa no que escreveu e começa a sentir algum arrependimento, pensa que ódios é uma palavra desnecessária e que existem palavras melhores, mas continua o que estava a fazer e escreve a lista. Quando acaba de escrever a lista, o rapaz relê. A lista começa com a palavra "aqui", passa por "esperar" e acaba com "arrependimento". Sente-se satisfeito por desabafar indirectamente, mas, subitamente, floresce-lhe uma certa angústia e raiva naquilo que acaba de escrever. O rapaz rasga a folha da agenda e machuca-a. Não quer deitá-la para o caixote do lixo, pois tem medo do destino que ela possa ter. Em vez disso, queima-a e enterra as cinzas no quintal. Olha para o céu e pede, silenciosamente, chuva. Não chove. Já era de esperar.
O rapaz, agora em casa, a olhar pela janela, despede-se antecipadamente da sua vida naquele local.
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