domingo, 13 de março de 2011

Heartless

Vou à casa de banho, preciso de lavar as mãos. Necessidade inconsciente. Dou duas pancadas no pacote do sabonete. Espalho pelas mãos antes de por na cara. Acho que é de leite e mel. Lembro-me das abelhas com os seus ferrões vingativos que têm consequências. Espera, o dia está a escurecer e o espelho acabou de embaciar. Um cheiro a ferrugem inala-me o nariz. Olho para as minhas mãos a limparem-se uma à outra automaticamente e reparo que já não tenho sabonete nas mãos, em vez disso tenho sangue. O teu sangue. Olho para o lavatório e vejo a água, que escorre pela torneira, a alterar a sua cor transparente lúcida para o vermelho do teu sangue. Restos da tua pele esfolada acompanham os movimentos circulares do teu sangue. Apetece-me entrar em pânico, mas fico petrificado com uma sensação de alivio pela vingança cometida. Tento lavar o teu sangue das minhas mãos. Não sai, é tinta. Quem me dera que fosse tinta, mas não posso iludir-me. É o teu sangue que já tive a oportunidade de sentir e saborear sem nenhuma violência.

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